O primeiro dia útil e a arte de não chamar o Egito de casa
Hoje é o primeiro dia útil do ano. E curiosamente, ou talvez não, esta semana começamos a ler um texto antiquíssimo que fala exatamente sobre isso. Toda semana, comunidades judaicas ao redor do mundo leem um trecho da Torá. Não é um ritual distante: é um jeito de olhar o tempo. Como se o ano tivesse capítulos, e toda semana abríssemos o mesmo capítulo juntos. O capítulo desta semana se chama Shemot, que significa “Nomes”. E a história começa assim: um povo cresce, trabalha, produz… mas perde a própria voz. Eles constroem cidades, fazem tijolos, sustentam um sistema inteiro e mesmo assim são tratados como descartáveis. O texto diz que surge um “novo rei” que não se lembra mais de quem eles são. Se isso soa familiar, não é coincidência. O primeiro dia útil do ano costuma ser assim: a caixa de entrada cheia, metas que não perguntam quem somos, cobranças que não lembram nossa história. Um sistema funcionando, enquanto a gente tenta não se perder dentro dele. Na história, o trabalho fica mais pesado. A exigência aumenta. Os recursos diminuem. O povo sofre, mas no começo nem consegue falar. Só geme. É o que o texto chama de exílio: não um castigo, mas um estado onde a vida continua… sem sentido, sem propósito. E é aí que algo importante acontece. A mudança não começa com um grande líder. Não começa com um plano estratégico. Começa com pequenos gestos humanos. Duas parteiras que dizem “não” a uma ordem injusta. Uma irmã que observa, cuida, espera. Uma mulher que estende a mão para salvar uma criança que não é sua. Antes de qualquer libertação, alguém protege a vida. Mais adiante, o protagonista da história, Moisés, não recebe um chamado em um templo ou num palco. Ele está trabalhando. Cuidando de ovelhas. No meio da rotina, ele percebe algo estranho: um arbusto em chamas que não se consome. A tradição diz que essa imagem ensina algo simples e profundo: o sagrado não aparece fora da vida. Ele aparece dentro do trabalho, do cansaço, do cotidiano, quando algo começa a queimar por dentro e pede atenção.